Naquela noite, a rua estava escura e nebulosa, a fraca
luz amarelada dos portes vacilava sobre a calçada molhada. A lua cheia
despontava no céu negro, onde nuvens pesadas e acinzentadas passeavam
sobrepondo o brilho das constelações. O nevoeiro pairava sobre a relva
amarronzada e espetada, onde a garoa fraca do anoitecer recaia. As folhas
ricocheteavam nos galhos retorcidos e as lufadas silvavam,emitindo um ruído
agudo, semelhante a um apito desafinado.
Eduardo voltava para casa, depois de um árduo dia de trabalho na oficina,
consertando e reparando veículos. Saía sempre às oito horas da noite e percorria
sempre o mesmo caminho. Aquele dia, ele andava despreocupado e absorto nos
próprios pensamentos. Não dispunha de companhia alguma, era apenas ele e os ruídos
da noite. Procurava calmaria e mal podia esperar para aconchegar-se na cama da
sua humildade moradia.
Gemidos
abafados e pequenas súplicas inundaram a rua silenciosa. Eduardo ajeitou o
casaco e vasculhou ao seu redor, antes de sair em disparada pela calçada. Tendo
como guia apenas sua audição. Notou, ainda ao longe, a entrada de um beco
estreito e escuro. Cessou os passos e recostou-se na parede úmida, espiando o
interior da passagem. Sentiu um metal enregelado apertar-se contra sua bochecha
e engoliu seco, impedindo-se de verificar o dono da arma. Foi guiado para beico
adentro, com o metal intimidador pressionando sua pele, uma mão enluvada
agarrou-lhe o braço e jogou-lhe contra o asfalto irregular, ao lado de uma
mulher desacordada. Revistou as roupas claras e amarfanhadas da ruiva, a pele
branca em contraste com as marcas arroxeadas que cobriam boa porta do corpo.
Eduardo ergueu os olhos, as pupilas tremelicando de raiva e repugno, e fulminou
o homem moreno em pé a sua frente, cujas expressões eram tão desdenhosas como
maliciosas.
-Desgraçado –
Guinchou Eduardo com os dentes friccionados.
O homem
soltou uma gargalhada debochada e chutou o rosto do garoto caído, forçando o
encontro do seu rosto com o chão áspero. Ele gemeu de dor e permaneceu em
silêncio por alguns segundos. Arqueou as costas e empurrou o chão com as mãos,
esforçando-se para levantar. Os cabelos recaiam sobre a face voltada para o
chão e, de repente, cerrou os punhos e socou o rosto do homem com a força que
ainda lhe restava. Observou-o cambalear para trás e o esmurrou mais duas vezes
antes dele tombar para o lado desacordado. Fungou, limpou o sangue que escorria
por seu nariz e voltou-se para a mulher desmaiada, mas fora pego de surpresa
com um golpe na barriga. Revirou os olhos de dor e fitou os olhos esverdeados
da mulher que acabara de vingar. A mão dela agarrava a navalha penetrada na
pele de Eduardo e o sorriso matreiro em seu rosto enfureceu o garoto. Ele
tentou se livrar, mas a mulher enfiava a navalha ainda mais.
-Talvez eu
merecesse. – Declarou a mulher, a voz rouca e sensual embriagou Eduardo. Mesmo
que odiasse aquela mulher, ele sentiu-se seduzido pela feminilidade que emanava
do seu corpo esguio. – Mas obrigada por interceder por mim. – Ela sussurrou
suavemente no ouvido de Eduardo, deixando-o ter arrepios com o hálito quente
que passeava por sua face.
Ela Cravou a
navalha mais fundo e a retirou abruptamente. O sangue escorreu pelo metal e
pingou no chão, ela limpou o objeto na barra da blusa e preparava-se para fugir
dali, quando mãos grossas agarraram-na o braço e a puxaram-na. Eduardo enlaçou
o braço na cintura da mulher e a pressionou contra seu corpo. Beijou-a
ferozmente e a largou:
-Não dispenso
recompensas. – Um sorriso maroto cobriu o rosto de Eduardo, cujos olhos fitavam
a silhueta feminina distanciar-se ao longe, com o mesmo sorriso cheio de
desejo, até desaparecer na escuridão.
Eduardo abriu
a torneira bruscamente e o jato d’água fervente incidiu sobre o mármore gélido
do banheiro. O chiado provocado pelo encontro das duas temperaturas pairou pelo
banheiro mal iluminado. Desenrolou a toalha de algodão da cintura e a largou
sobre a pia molhada. Em frente ao espelho, retangular e embaçado pelo vapor
d’água, ele fitou o reflexo desnudo do seu corpo, a retorcida imagem dos ombros
largos e fortes, os músculos atraentes, o abdômen definido e a pele
avermelhada, castigada por um sol forte e ardente. Os olhos castanho-escuros
percorreram a linha do músculo transverso até pararem no corte profundo na
parte inferior da barriga. Roçou os dedos longos no ferimento aberto e abriu um
sorriso de lado, quase imperceptível.
As pessoas
não são o que aparentam ser. Escondem o seu verdadeiro eu e contam vantagem com
a ingenuidade das outras pessoas. Algumas são influenciadas e outras,
simplesmente, precisam que algo desperte o monstro dentro de si. Cada um possui
o lado negro no fundo de suas almas, de suas consciências, mas alguns escolhem
lutar contra, enquanto outros simplesmente se deixam dominar.
-Valéria Coelho