sábado, 28 de julho de 2012


      As solas do sapato raspavam o assoalho de madeira delatando a presença dele na saleta. Eu acabara de despejar uma pequena dose de Whisky no copo de vidro sobre o aparador, quando ele decidiu pronunciar-se.
     -Oi.
     A voz dele produziu um pequeno eco e, ao mesmo tempo em que era grave, era suave. Prendi a respiração por míseros segundos até que restabeleci a calma. Recuperei o fôlego e comecei a respirar, o meu peito elevava e regredia lentamente e tornava-se meio falho quando eu sentia os intensos olhos escuros dele sobre minhas costas. A presença dele me deixava perturbada, desnorteada, vulnerável, feliz, esperançosa, tentada. Fechei os olhos e deliciei-me com as imagens da noite em que estive nos braços dele, usufruindo dos lábios carnudos que eu tanto desejei ter nos meus. Os braços fortes me enlaçando e as línguas dançando em nossas bocas. Mas, apesar de ter conseguido o que eu desejava secretamente por tanto tempo, eu sabia que haveria um fim iminente.  Fora apenas aquele dia e nada mais, posso refugiar-me nessas lembranças quando eu não o tiver mais comigo, mas a dor seria maior. O desespero inundou meu coração e eu senti esse meu músculo tão destroçado pela vida apertar-se. As lágrimas ameaçaram meus olhos e eu não me permitia virar para ele e encará-lo nos olhos.
     -Precisamos conversar.
     Cada palavra dele era como uma adaga afiada no meio do meu peito. Eu me sentia apunhalada pela minha própria decisão. Eu procurei o sofrimento quando joguei-me nos braços dele, tendo conhecimento de que eu não teria nada mais além daquilo. Não resisti quando ele estava disposto a me proporcioná-lo.
    -Eu sei o que você quer. Eu sei o que você pretende.
A minha voz saiu um tanto abafada, mas não impediu que um alívio gigantesco emergisse de dentro dele. Aparentemente, temia uma reação da minha parte que não pudesse controlar e sentiu-se livre de um peso quando eu não demonstrei alteração, dor, sofrimento; entretanto, enquanto meu exterior mentia para ele e tentava mentir para mim, o meu interior explodia tristeza. Um mundo desmoronava sobre mim. O meu mundo estava desmoronando.
Então, ele saiu da saleta. Eu mergulhei no vazio. Estava vagando por um vácuo. Nada mais importava àquela altura, as lágrimas já podiam deixar meus olhos e umedecer a minha face. As lágrimas não perduraram muito. Eu pensei depois, refleti comigo mesma, talvez nossos destinos não estivessem traçados, de qualquer forma. No entanto, não me arrependo das decisões que eu tomei, do caminho que eu segui e do destino que eu tracei. Vivi, chorei e sorri por ele, com ele e sem ele. Eu o queria, mais do que eu jamais quis alguém, mas se não foi pra ser meu, o desfecho da nossa história foi espetacular. E mesmo que passe meses e anos, eu nunca esquecerei o quanto ele foi necessário e importante para mim, para a minha vida. Posso amar novamente, cicatrizar o meu coração e me entregar a outro, no entanto, nada vai me fazer esquecer como foi e quem foi o meu primeiro amor. Deixei-o ir, seguir a vida dele, a vida que eu não farei parte. Nossos destinos se separam aqui e seguem caminhos diferentes. Quem sabe eles não se reencontram no futuro?


     Eu queria tentar mais, muito mais, isso parece um desfecho espetacular para essa história?

      Eu desejo com vigor confessar-lhe o meu amor. O sentimento resguardado no meu coração, na minha mente e no meu ser; porém, nada me fornece segurança para que eu despeje esse turbilhão de sentimentos. É, claro, no entanto, que o sentimento que eu nutro por ele é tão somente puro e benigno, talvez egoísta, quem sabe? Uma vez que o meu olhar tremeluz e minhas penas sacolejam sobre meus pés instáveis quando recebo a visão do meu amor com outra pessoa, que me pareça uma ameaça de roubá-lo de mim. Durmo em prantos todas as noites, tendo apenas o conforto do meu branco e felpudo travesseiro, cujo aroma de cerejeiras eu mesma o forneci. Não sou tão ousada a ponto de pressupor que ele sente algo por mim, uma mera amizade seria sublime, maravilhoso; mas, ao mesmo tempo, soturno para mim já que eu nunca o teria em meus braços, onde eu teria a certeza que eu seria capaz de protegê-lo com tudo o que eu podia; compreendê-lo com toda a minha sensibilidade ou ouvi-lo com toda a minha paciência. Mas, penso eu, que nenhuma das qualidades que mencionei acima são próprias do meu ser, mas surgem quando penso ou estou na presença dele. Por que eu o amo. Amo tanto que desconfio se um amor dessa intensidade existe realmente. No entanto, nada pode retirar-me a certeza de que sem ele nada sou e viver não valerá mais a pena.


-valéria coelho

Nenhum comentário:

Postar um comentário