As solas do sapato raspavam o assoalho de
madeira delatando a presença dele na saleta. Eu acabara de despejar uma pequena
dose de Whisky no copo de vidro sobre o aparador, quando ele decidiu
pronunciar-se.
-Oi.
A voz dele produziu um pequeno eco e, ao
mesmo tempo em que era grave, era suave. Prendi a respiração por míseros
segundos até que restabeleci a calma. Recuperei o fôlego e comecei a respirar,
o meu peito elevava e regredia lentamente e tornava-se meio falho quando eu
sentia os intensos olhos escuros dele sobre minhas costas. A presença dele me
deixava perturbada, desnorteada, vulnerável, feliz, esperançosa, tentada.
Fechei os olhos e deliciei-me com as imagens da noite em que estive nos braços
dele, usufruindo dos lábios carnudos que eu tanto desejei ter nos meus. Os
braços fortes me enlaçando e as línguas dançando em nossas bocas. Mas, apesar
de ter conseguido o que eu desejava secretamente por tanto tempo, eu sabia que
haveria um fim iminente. Fora apenas
aquele dia e nada mais, posso refugiar-me nessas lembranças quando eu não o
tiver mais comigo, mas a dor seria maior. O desespero inundou meu coração e eu
senti esse meu músculo tão destroçado pela vida apertar-se. As lágrimas
ameaçaram meus olhos e eu não me permitia virar para ele e encará-lo nos olhos.
-Precisamos conversar.
Cada palavra dele era como uma adaga
afiada no meio do meu peito. Eu me sentia apunhalada pela minha própria
decisão. Eu procurei o sofrimento quando joguei-me nos braços dele, tendo
conhecimento de que eu não teria nada mais além daquilo. Não resisti quando ele
estava disposto a me proporcioná-lo.
-Eu sei o que você quer. Eu sei o que você
pretende.
A minha voz saiu um tanto
abafada, mas não impediu que um alívio gigantesco emergisse de dentro dele.
Aparentemente, temia uma reação da minha parte que não pudesse controlar e
sentiu-se livre de um peso quando eu não demonstrei alteração, dor, sofrimento;
entretanto, enquanto meu exterior mentia para ele e tentava mentir para mim, o
meu interior explodia tristeza. Um mundo desmoronava sobre mim. O meu mundo
estava desmoronando.
Então, ele saiu da
saleta. Eu mergulhei no vazio. Estava vagando por um vácuo. Nada mais importava
àquela altura, as lágrimas já podiam deixar meus olhos e umedecer a minha face.
As lágrimas não perduraram muito. Eu pensei depois, refleti comigo mesma,
talvez nossos destinos não estivessem traçados, de qualquer forma. No entanto,
não me arrependo das decisões que eu tomei, do caminho que eu segui e do
destino que eu tracei. Vivi, chorei e sorri por ele, com ele e sem ele. Eu o
queria, mais do que eu jamais quis alguém, mas se não foi pra ser meu, o
desfecho da nossa história foi espetacular. E mesmo que passe meses e anos, eu
nunca esquecerei o quanto ele foi necessário e importante para mim, para a
minha vida. Posso amar novamente, cicatrizar o meu coração e me entregar a
outro, no entanto, nada vai me fazer esquecer como foi e quem foi o meu
primeiro amor. Deixei-o ir, seguir a vida dele, a vida que eu não farei parte.
Nossos destinos se separam aqui e seguem caminhos diferentes. Quem sabe eles
não se reencontram no futuro?
Eu queria tentar mais, muito mais, isso
parece um desfecho espetacular para essa história?
Eu desejo com vigor confessar-lhe o meu
amor. O sentimento resguardado no meu coração, na minha mente e no meu ser;
porém, nada me fornece segurança para que eu despeje esse turbilhão de
sentimentos. É, claro, no entanto, que o sentimento que eu nutro por ele é tão
somente puro e benigno, talvez egoísta, quem sabe? Uma vez que o meu olhar
tremeluz e minhas penas sacolejam sobre meus pés instáveis quando recebo a
visão do meu amor com outra pessoa, que me pareça uma ameaça de roubá-lo de
mim. Durmo em prantos todas as noites, tendo apenas o conforto do meu branco e
felpudo travesseiro, cujo aroma de cerejeiras eu mesma o forneci. Não sou tão ousada
a ponto de pressupor que ele sente algo por mim, uma mera amizade seria
sublime, maravilhoso; mas, ao mesmo tempo, soturno para mim já que eu nunca o
teria em meus braços, onde eu teria a certeza que eu seria capaz de protegê-lo
com tudo o que eu podia; compreendê-lo com toda a minha sensibilidade ou
ouvi-lo com toda a minha paciência. Mas, penso eu, que nenhuma das qualidades
que mencionei acima são próprias do meu ser, mas surgem quando penso ou estou
na presença dele. Por que eu o amo. Amo tanto que desconfio se um amor dessa
intensidade existe realmente. No entanto, nada pode retirar-me a certeza de que
sem ele nada sou e viver não valerá mais a pena.
-valéria coelho
-valéria coelho
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