Quando as nuvens estiverem cobrindo os céus, imagine as estrelas.
-Valéria coelho
segunda-feira, 30 de julho de 2012
E
eram muito mais brincadeiras do que verdades. Eram conversas para passar o
tempo, para se conhecer melhor, para descobrir cada detalhezinho do outro em
uma conversa descontraída, onde cada história sórdida e libidinosa era encarada
como uma experiência engraçada. Eram conversas que abriam as portas para a
intimidade. Cada vez mais, o contato se fazia presente. Desde dedos
entrelaçados até beijos roubados. O sentimento crescia e criava asas. Era bom,
gostoso, reconfortante. A presença dos dois tornou-se imprescindível nos dias
que se seguiam. Os sorrisos dos dois quando finalmente se olhavam eram
constantes, os olhares se tornaram mais intensos e o sentimento mais concreto.
Àquela altura, já não era mais só amizade, mais só um fica, mais só uma paixão.
Não eram mais apenas trocas de beijos,
contato carnal e um contrato de enamorados. Era algo mais forte, mais bonito,
mais mágico. As verdades nas brincadeiras apareciam, assim como o ciúme das
histórias antigas, amores passados... Um medo, talvez, de surgirem no presente
e de perderem a preciosidade que haviam conseguido: O amor. Era um sentimento
que não podia mais simplesmente desparecer, evaporar. Todo dia se fazia mais
forte e crescia, mesmo que um pouquinho. Um não acreditava que o outro amava
mais e, assim, nunca chegavam a lugar nenhum. Parecia um amor sem fim. Era um
amor sem fim. Era impossível nascer uma ligação maior e personalidades mais
compatíveis. Àquela altura, não sabiam como havia acontecido e nenhuma certeza
era maior do que o amor que sentiam um pelo o outro. E era só isso que
importava.
-Valéria Coelho
domingo, 29 de julho de 2012
Naquela noite, a rua estava escura e nebulosa, a fraca
luz amarelada dos portes vacilava sobre a calçada molhada. A lua cheia
despontava no céu negro, onde nuvens pesadas e acinzentadas passeavam
sobrepondo o brilho das constelações. O nevoeiro pairava sobre a relva
amarronzada e espetada, onde a garoa fraca do anoitecer recaia. As folhas
ricocheteavam nos galhos retorcidos e as lufadas silvavam,emitindo um ruído
agudo, semelhante a um apito desafinado.
Eduardo voltava para casa, depois de um árduo dia de trabalho na oficina,
consertando e reparando veículos. Saía sempre às oito horas da noite e percorria
sempre o mesmo caminho. Aquele dia, ele andava despreocupado e absorto nos
próprios pensamentos. Não dispunha de companhia alguma, era apenas ele e os ruídos
da noite. Procurava calmaria e mal podia esperar para aconchegar-se na cama da
sua humildade moradia.
Gemidos
abafados e pequenas súplicas inundaram a rua silenciosa. Eduardo ajeitou o
casaco e vasculhou ao seu redor, antes de sair em disparada pela calçada. Tendo
como guia apenas sua audição. Notou, ainda ao longe, a entrada de um beco
estreito e escuro. Cessou os passos e recostou-se na parede úmida, espiando o
interior da passagem. Sentiu um metal enregelado apertar-se contra sua bochecha
e engoliu seco, impedindo-se de verificar o dono da arma. Foi guiado para beico
adentro, com o metal intimidador pressionando sua pele, uma mão enluvada
agarrou-lhe o braço e jogou-lhe contra o asfalto irregular, ao lado de uma
mulher desacordada. Revistou as roupas claras e amarfanhadas da ruiva, a pele
branca em contraste com as marcas arroxeadas que cobriam boa porta do corpo.
Eduardo ergueu os olhos, as pupilas tremelicando de raiva e repugno, e fulminou
o homem moreno em pé a sua frente, cujas expressões eram tão desdenhosas como
maliciosas.
-Desgraçado –
Guinchou Eduardo com os dentes friccionados.
O homem
soltou uma gargalhada debochada e chutou o rosto do garoto caído, forçando o
encontro do seu rosto com o chão áspero. Ele gemeu de dor e permaneceu em
silêncio por alguns segundos. Arqueou as costas e empurrou o chão com as mãos,
esforçando-se para levantar. Os cabelos recaiam sobre a face voltada para o
chão e, de repente, cerrou os punhos e socou o rosto do homem com a força que
ainda lhe restava. Observou-o cambalear para trás e o esmurrou mais duas vezes
antes dele tombar para o lado desacordado. Fungou, limpou o sangue que escorria
por seu nariz e voltou-se para a mulher desmaiada, mas fora pego de surpresa
com um golpe na barriga. Revirou os olhos de dor e fitou os olhos esverdeados
da mulher que acabara de vingar. A mão dela agarrava a navalha penetrada na
pele de Eduardo e o sorriso matreiro em seu rosto enfureceu o garoto. Ele
tentou se livrar, mas a mulher enfiava a navalha ainda mais.
-Talvez eu
merecesse. – Declarou a mulher, a voz rouca e sensual embriagou Eduardo. Mesmo
que odiasse aquela mulher, ele sentiu-se seduzido pela feminilidade que emanava
do seu corpo esguio. – Mas obrigada por interceder por mim. – Ela sussurrou
suavemente no ouvido de Eduardo, deixando-o ter arrepios com o hálito quente
que passeava por sua face.
Ela Cravou a
navalha mais fundo e a retirou abruptamente. O sangue escorreu pelo metal e
pingou no chão, ela limpou o objeto na barra da blusa e preparava-se para fugir
dali, quando mãos grossas agarraram-na o braço e a puxaram-na. Eduardo enlaçou
o braço na cintura da mulher e a pressionou contra seu corpo. Beijou-a
ferozmente e a largou:
-Não dispenso
recompensas. – Um sorriso maroto cobriu o rosto de Eduardo, cujos olhos fitavam
a silhueta feminina distanciar-se ao longe, com o mesmo sorriso cheio de
desejo, até desaparecer na escuridão.
Eduardo abriu
a torneira bruscamente e o jato d’água fervente incidiu sobre o mármore gélido
do banheiro. O chiado provocado pelo encontro das duas temperaturas pairou pelo
banheiro mal iluminado. Desenrolou a toalha de algodão da cintura e a largou
sobre a pia molhada. Em frente ao espelho, retangular e embaçado pelo vapor
d’água, ele fitou o reflexo desnudo do seu corpo, a retorcida imagem dos ombros
largos e fortes, os músculos atraentes, o abdômen definido e a pele
avermelhada, castigada por um sol forte e ardente. Os olhos castanho-escuros
percorreram a linha do músculo transverso até pararem no corte profundo na
parte inferior da barriga. Roçou os dedos longos no ferimento aberto e abriu um
sorriso de lado, quase imperceptível.
As pessoas
não são o que aparentam ser. Escondem o seu verdadeiro eu e contam vantagem com
a ingenuidade das outras pessoas. Algumas são influenciadas e outras,
simplesmente, precisam que algo desperte o monstro dentro de si. Cada um possui
o lado negro no fundo de suas almas, de suas consciências, mas alguns escolhem
lutar contra, enquanto outros simplesmente se deixam dominar.
-Valéria Coelho
sábado, 28 de julho de 2012
Um
brinde ao jeito como você me faz sorrir do nada. Um brinde ao jeito como você
me trata, do jeito que qualquer garota sonharia, do jeito que eu sonho. Um
brinde ao sorriso que nunca deixa meu rosto quando estou com você. Um brinde ao
seu sorriso, que consegue iluminar uma noite sombria. Um brinde ao nosso
orgulho que não é forte o suficiente para brigarmos. Um brinde ao jeito
estranho que eu tenho de dizer que eu te amo e um brinde ao seu jeito de dizer
que ama mais, mesmo eu sabendo que eu sinto mais. Um brinde a todas essas
coisas que nos fazem imperfeitos, mas que adoramos tanto um no outro. Desculpa
por meus dias de estresse, me desculpe por ser chata, talvez eu só tenha medo
de te perder. Na verdade, eu tenho medo de te perder. Me desculpe por te amar
tanto... É só que... é muito sentimento
para guardar aqui dentro. Desculpe pelo meu jeito estabanado de dizer as
coisas, e obrigada por tolerar tanto texto chato. Obrigada por alegrar meu dia
com o som da sua voz ou com uma simples mensagem dizendo “Bom Dia”. O que eu
quero dizer é que, mesmo que faça pouco tempo, eu cheguei ao ponto de te amar
tão intensamente que eu acho um pecado não dizer que te amo e o quanto você é
especial. Deslumbrante são seus olhos que sorriem para o mundo, e inegavelmente
arrebatadores quando me encaram. O deleite de seus lábios em minha boca é algo
inexplicável. É suave, afável, carinhoso, ardente, amoroso, fiel, alegre.
Passei a sentir o que eu tinha me proibido de sentir, me arrisquei a ficar
vulnerável como nunca fui. Aprendi, então, que quando uma pessoa passa a fazer
parte do seu cotidiano, da sua vida e do seu coração, você não pode
simplesmente deixar isso partir. Arriscar é perigoso, mas deixar a felicidade
ir embora é mais perigoso ainda. O primeiro é efêmero e o segundo é para
sempre. Com você aprendi a sorrir sozinha... quando lembro de você. É um caso
médico problemático, porque o remédio é raro, é você. Adoro quando nossos
olhares se encontram e sorrisos simultaneamente brotam de nossos lábios. Adoro
seu corpo apertado contra o meu, sinto o meu mundo guardadinho entrelaçado
entre meus braços. Adoro quando você sussurra no meu ouvido e adoro mais quando
consigo te fazer sorrir. Quer saber? Um brinde ao que ainda há por vir e, que
por qualquer obstáculo, eu o ultrapasse com você.
-Valéria coelho
As solas do sapato raspavam o assoalho de
madeira delatando a presença dele na saleta. Eu acabara de despejar uma pequena
dose de Whisky no copo de vidro sobre o aparador, quando ele decidiu
pronunciar-se.
-Oi.
A voz dele produziu um pequeno eco e, ao
mesmo tempo em que era grave, era suave. Prendi a respiração por míseros
segundos até que restabeleci a calma. Recuperei o fôlego e comecei a respirar,
o meu peito elevava e regredia lentamente e tornava-se meio falho quando eu
sentia os intensos olhos escuros dele sobre minhas costas. A presença dele me
deixava perturbada, desnorteada, vulnerável, feliz, esperançosa, tentada.
Fechei os olhos e deliciei-me com as imagens da noite em que estive nos braços
dele, usufruindo dos lábios carnudos que eu tanto desejei ter nos meus. Os
braços fortes me enlaçando e as línguas dançando em nossas bocas. Mas, apesar
de ter conseguido o que eu desejava secretamente por tanto tempo, eu sabia que
haveria um fim iminente. Fora apenas
aquele dia e nada mais, posso refugiar-me nessas lembranças quando eu não o
tiver mais comigo, mas a dor seria maior. O desespero inundou meu coração e eu
senti esse meu músculo tão destroçado pela vida apertar-se. As lágrimas
ameaçaram meus olhos e eu não me permitia virar para ele e encará-lo nos olhos.
-Precisamos conversar.
Cada palavra dele era como uma adaga
afiada no meio do meu peito. Eu me sentia apunhalada pela minha própria
decisão. Eu procurei o sofrimento quando joguei-me nos braços dele, tendo
conhecimento de que eu não teria nada mais além daquilo. Não resisti quando ele
estava disposto a me proporcioná-lo.
-Eu sei o que você quer. Eu sei o que você
pretende.
A minha voz saiu um tanto
abafada, mas não impediu que um alívio gigantesco emergisse de dentro dele.
Aparentemente, temia uma reação da minha parte que não pudesse controlar e
sentiu-se livre de um peso quando eu não demonstrei alteração, dor, sofrimento;
entretanto, enquanto meu exterior mentia para ele e tentava mentir para mim, o
meu interior explodia tristeza. Um mundo desmoronava sobre mim. O meu mundo
estava desmoronando.
Então, ele saiu da
saleta. Eu mergulhei no vazio. Estava vagando por um vácuo. Nada mais importava
àquela altura, as lágrimas já podiam deixar meus olhos e umedecer a minha face.
As lágrimas não perduraram muito. Eu pensei depois, refleti comigo mesma,
talvez nossos destinos não estivessem traçados, de qualquer forma. No entanto,
não me arrependo das decisões que eu tomei, do caminho que eu segui e do
destino que eu tracei. Vivi, chorei e sorri por ele, com ele e sem ele. Eu o
queria, mais do que eu jamais quis alguém, mas se não foi pra ser meu, o
desfecho da nossa história foi espetacular. E mesmo que passe meses e anos, eu
nunca esquecerei o quanto ele foi necessário e importante para mim, para a
minha vida. Posso amar novamente, cicatrizar o meu coração e me entregar a
outro, no entanto, nada vai me fazer esquecer como foi e quem foi o meu
primeiro amor. Deixei-o ir, seguir a vida dele, a vida que eu não farei parte.
Nossos destinos se separam aqui e seguem caminhos diferentes. Quem sabe eles
não se reencontram no futuro?
Eu queria tentar mais, muito mais, isso
parece um desfecho espetacular para essa história?
Eu desejo com vigor confessar-lhe o meu
amor. O sentimento resguardado no meu coração, na minha mente e no meu ser;
porém, nada me fornece segurança para que eu despeje esse turbilhão de
sentimentos. É, claro, no entanto, que o sentimento que eu nutro por ele é tão
somente puro e benigno, talvez egoísta, quem sabe? Uma vez que o meu olhar
tremeluz e minhas penas sacolejam sobre meus pés instáveis quando recebo a
visão do meu amor com outra pessoa, que me pareça uma ameaça de roubá-lo de
mim. Durmo em prantos todas as noites, tendo apenas o conforto do meu branco e
felpudo travesseiro, cujo aroma de cerejeiras eu mesma o forneci. Não sou tão ousada
a ponto de pressupor que ele sente algo por mim, uma mera amizade seria
sublime, maravilhoso; mas, ao mesmo tempo, soturno para mim já que eu nunca o
teria em meus braços, onde eu teria a certeza que eu seria capaz de protegê-lo
com tudo o que eu podia; compreendê-lo com toda a minha sensibilidade ou
ouvi-lo com toda a minha paciência. Mas, penso eu, que nenhuma das qualidades
que mencionei acima são próprias do meu ser, mas surgem quando penso ou estou
na presença dele. Por que eu o amo. Amo tanto que desconfio se um amor dessa
intensidade existe realmente. No entanto, nada pode retirar-me a certeza de que
sem ele nada sou e viver não valerá mais a pena.
-valéria coelho
-valéria coelho
terça-feira, 24 de julho de 2012
Eu estava lá. Inquieta na parada do
ônibus, sacolejando as pernas e mordiscando o lábio inferior. O tempo passava e
eu me escolhia no suéter de caxemira , os ventos sopravam calmos e toda essa
calmaria me deixava aos nervos. Porque hoje estava demorando tanto? Não. Nada
de especial aconteceria naquele dia, era apenas mais 24 horas em que fazia mais
plena a minha existência. Espiei pelo canto do olho uma mulher com cabelos grisalhos
e pele enrugada sentada ao lado de um garoto, cabelo negro, piercing no nariz,
calças pretas com algumas correntes, camisa do Metallica. Era meio sinistro,
mas tinha seu estilo. Absorvi-me naquele ínfimo contato visual, me prendendo
naquele rápido pensamento inútil sobre as pessoas que ali me cercavam. Suspirei
e voltei meu olhar para o final da rua, onde a neblina jazia mais firme e
espessa. Dali a uma hora, estaria mais frio e quase difícil enxergar algo a um
palmo de distância dos olhos. Porque esse ônibus não chegava logo? Recostei-me
na haste que sustenta a placa do ônibus. Mais irrequieta e mais frustrada.
Continuei a cutucar os meus lábios, agora com a ponta dos dedos. Já estavam
ressequidos com o clima seco e frio, e acabei por machucá-los. Xinguei mentalmente
e franzi o cenho. “Naquele dia, nada estava saindo como planejado” Umas
gotículas de sangue fixaram-se nas pontas dos meus dedos e eu os limpei com um
lenço que minha mãe guardara no pequeno bolso na lateral da minha mochila. Tentei
desanuviar a minha mente, inundada em problemas, estresses e preocupações. Mas
nada. Nadinha mesmo.
Batuquei a sola dos meus sapatos na
calçada, fazendo um eco estourar pela rua silenciosa. Suspirei uma, duas, três
vezes... na quarta vez, o ruído esganiçado de um motor soava rua acima, e o
ônibus 226 apareceu ao longe e atravessou a descida até o ponto de ônibus.
Infelizmente, não era o que eu aguardava. Ouvi os dois companheiros de parada
atrás de mim levantarem-se dos seus assentos e guiarem-se até o meu lado.
Observei-os mais uma vez, de soslaio. A mulher parecia mais jovem, as pernas
eram brancas e gordas, realçadas ainda mais pela saia de pregas que acabava no
final das suas coxas. Prendi a atenção mais um pouco no garoto roqueiro e nas
suas botas de motoqueiro. Um coturno de belo gosto, em minha opinião. Subi o
olhar e encarei-o. Ele também me fitava, não com um olhar surpreso, grosseiro
ou intimidador. Mas sim, um olhar perdido. Entortei meus lábios e rodei meu
olhar para frente e ali o fixei. Fitei o ônibus enferrujado e amarelo parar e sua porta abrir a minha frente. A mulher caminhou até a escada
e a subiu.
Senti mãos friass agarrarem meu braço e
pus minha mão no meu coração. Meu solhos sobressaltados fitavam o garoto que
havia se posto ao meu lado. Ele estendeu a mão fechada para mim e, confirmando
que eu a havia percebido, revelou o belo batom de cacau descansando sobre sua
mão.
-Acho que você precisa. – Ele ofereceu.
Tentei recusar, mas as palavras deram
lugar a grunhidos incompreensíveis. Aceitar algo de alguém desconhecido não era
uma prática muito comum de pessoas que queriam a expectativa de vida um pouco
maior. Mas nada pude fazer, ele depositou o batom nas minhas mãos, e sorriu
antes de entrar no ônibus. Meu rosto contorceu-se em uma careta. “Estranho”
-Menina. – Uma voz grossa e cansada ecoou. –
Você não vai entrar?
Voltei a atenção para o motorista do
ônibus. Um homem de idade com a aparência cansada e com o rosto desgastado pelo
tempo. Havia uma protuberância em sua corcunda devida aos anos em que dirigia.
O cabelo grisalho já pouco ocupava espaço e a pele enrrugada revelava sua
fadiga.
-Não. Este não é o meu ônibus. Estou à
espera do 227. – Repliquei, lançando um breve sorriso.
-Creio que deverá esperar um pouco mais. –
Ele respondeu. – Na verdade, aconselho que ache outro meio de transporte. O 227
está com problemas. Boa sorte. – Ouvi suas últimas palavras antes que as portas
fechassem e o motor do ônibus zumbisse mais uma vez.
Observei o veículo descer ao longe, sentindo
meu estômago embrulhar. Apertei o batom em minhas mãos com raiva, lembrei-me do
garoto cujo nome eu não sabia e do seu comportamento estranho. Nada ainda me
restava a não ser aquele objeto. Abri-o e deslizei-o pelos meus lábios
ressecados e quebradiços.
Tornei a colocar a tampa no batom, mas
encontrei um pequeno pedaço de papel, quase imperceptível lá no fundo da tampa.
Puxei-o usando minhas unhas e o li.
“Gerardi
Collins”
O batom correu pelos meus dedos e caiu no
chão, rolando até cair no asfalto da rua. Boquiaberta, minha mente mal
conseguia raciocinar. Eu o conhecia. Conhecia o garoto de comportamento
estranho e roupas pretas. Ele era meu colega de classe. Meu falecido colega de
classe.
Um arrepio subiu pela minha espinha ao me lembrar
dos detalhes estampados no jornal da escola.
“Aluno do segundo ano do ensino
médio faleceu essa segunda-feira quando voltava da escola. O ônibus 227 que o
transportava tombou em uma curva da Avenida de Giudescard, matando cinco
pessoas e deixando 17 feridas.”
Agora eu sabia por que o ônibus não
apareceria.
[Valéria Coelho]
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