terça-feira, 24 de julho de 2012


      Eu estava lá. Inquieta na parada do ônibus, sacolejando as pernas e mordiscando o lábio inferior. O tempo passava e eu me escolhia no suéter de caxemira , os ventos sopravam calmos e toda essa calmaria me deixava aos nervos. Porque hoje estava demorando tanto? Não. Nada de especial aconteceria naquele dia, era apenas mais 24 horas em que fazia mais plena a minha existência. Espiei pelo canto do olho uma mulher com cabelos grisalhos e pele enrugada sentada ao lado de um garoto, cabelo negro, piercing no nariz, calças pretas com algumas correntes, camisa do Metallica. Era meio sinistro, mas tinha seu estilo. Absorvi-me naquele ínfimo contato visual, me prendendo naquele rápido pensamento inútil sobre as pessoas que ali me cercavam. Suspirei e voltei meu olhar para o final da rua, onde a neblina jazia mais firme e espessa. Dali a uma hora, estaria mais frio e quase difícil enxergar algo a um palmo de distância dos olhos. Porque esse ônibus não chegava logo? Recostei-me na haste que sustenta a placa do ônibus. Mais irrequieta e mais frustrada. Continuei a cutucar os meus lábios, agora com a ponta dos dedos. Já estavam ressequidos com o clima seco e frio, e acabei por machucá-los. Xinguei mentalmente e franzi o cenho. “Naquele dia, nada estava saindo como planejado” Umas gotículas de sangue fixaram-se nas pontas dos meus dedos e eu os limpei com um lenço que minha mãe guardara no pequeno bolso na lateral da minha mochila. Tentei desanuviar a minha mente, inundada em problemas, estresses e preocupações. Mas nada. Nadinha mesmo.
       Batuquei a sola dos meus sapatos na calçada, fazendo um eco estourar pela rua silenciosa. Suspirei uma, duas, três vezes... na quarta vez, o ruído esganiçado de um motor soava rua acima, e o ônibus 226 apareceu ao longe e atravessou a descida até o ponto de ônibus. Infelizmente, não era o que eu aguardava. Ouvi os dois companheiros de parada atrás de mim levantarem-se dos seus assentos e guiarem-se até o meu lado. Observei-os mais uma vez, de soslaio. A mulher parecia mais jovem, as pernas eram brancas e gordas, realçadas ainda mais pela saia de pregas que acabava no final das suas coxas. Prendi a atenção mais um pouco no garoto roqueiro e nas suas botas de motoqueiro. Um coturno de belo gosto, em minha opinião. Subi o olhar e encarei-o. Ele também me fitava, não com um olhar surpreso, grosseiro ou intimidador. Mas sim, um olhar perdido. Entortei meus lábios e rodei meu olhar para frente e ali o fixei. Fitei o ônibus enferrujado e amarelo parar e sua porta abrir a minha frente. A mulher caminhou até a escada e a subiu.
      Senti mãos friass agarrarem meu braço e pus minha mão no meu coração. Meu solhos sobressaltados fitavam o garoto que havia se posto ao meu lado. Ele estendeu a mão fechada para mim e, confirmando que eu a havia percebido, revelou o belo batom de cacau descansando sobre sua mão.
      -Acho que você precisa. – Ele ofereceu.
       Tentei recusar, mas as palavras deram lugar a grunhidos incompreensíveis. Aceitar algo de alguém desconhecido não era uma prática muito comum de pessoas que queriam a expectativa de vida um pouco maior. Mas nada pude fazer, ele depositou o batom nas minhas mãos, e sorriu antes de entrar no ônibus. Meu rosto contorceu-se em uma careta. “Estranho”
    -Menina. – Uma voz grossa e cansada ecoou. – Você não vai entrar?
    Voltei a atenção para o motorista do ônibus. Um homem de idade com a aparência cansada e com o rosto desgastado pelo tempo. Havia uma protuberância em sua corcunda devida aos anos em que dirigia. O cabelo grisalho já pouco ocupava espaço e a pele enrrugada revelava sua fadiga.
   -Não. Este não é o meu ônibus. Estou à espera do 227. – Repliquei, lançando um breve sorriso.
  -Creio que deverá esperar um pouco mais. – Ele respondeu. – Na verdade, aconselho que ache outro meio de transporte. O 227 está com problemas. Boa sorte. – Ouvi suas últimas palavras antes que as portas fechassem e o motor do ônibus zumbisse mais uma vez.
   Observei o veículo descer ao longe, sentindo meu estômago embrulhar. Apertei o batom em minhas mãos com raiva, lembrei-me do garoto cujo nome eu não sabia e do seu comportamento estranho. Nada ainda me restava a não ser aquele objeto. Abri-o e deslizei-o pelos meus lábios ressecados e quebradiços.
  Tornei a colocar a tampa no batom, mas encontrei um pequeno pedaço de papel, quase imperceptível lá no fundo da tampa. Puxei-o usando minhas unhas e o li.
                                   “Gerardi Collins”
  O batom correu pelos meus dedos e caiu no chão, rolando até cair no asfalto da rua. Boquiaberta, minha mente mal conseguia raciocinar. Eu o conhecia. Conhecia o garoto de comportamento estranho e roupas pretas. Ele era meu colega de classe. Meu falecido colega de classe.
    Um arrepio subiu pela minha espinha ao me lembrar dos detalhes estampados no jornal da escola.
                         “Aluno do segundo ano do ensino médio faleceu essa segunda-feira quando voltava da escola. O ônibus 227 que o transportava tombou em uma curva da Avenida de Giudescard, matando cinco pessoas e deixando 17 feridas.”
     Agora eu sabia por que o ônibus não apareceria. 

[Valéria Coelho]

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