domingo, 29 de julho de 2012


    Naquela noite, a rua estava escura e nebulosa, a fraca luz amarelada dos portes vacilava sobre a calçada molhada. A lua cheia despontava no céu negro, onde nuvens pesadas e acinzentadas passeavam sobrepondo o brilho das constelações. O nevoeiro pairava sobre a relva amarronzada e espetada, onde a garoa fraca do anoitecer recaia. As folhas ricocheteavam nos galhos retorcidos e as lufadas silvavam,emitindo um ruído agudo, semelhante a um apito desafinado.  Eduardo voltava para casa, depois de um árduo dia de trabalho na oficina, consertando e reparando veículos. Saía sempre às oito horas da noite e percorria sempre o mesmo caminho. Aquele dia, ele andava despreocupado e absorto nos próprios pensamentos. Não dispunha de companhia alguma, era apenas ele e os ruídos da noite. Procurava calmaria e mal podia esperar para aconchegar-se na cama da sua humildade moradia.
    Gemidos abafados e pequenas súplicas inundaram a rua silenciosa. Eduardo ajeitou o casaco e vasculhou ao seu redor, antes de sair em disparada pela calçada. Tendo como guia apenas sua audição. Notou, ainda ao longe, a entrada de um beco estreito e escuro. Cessou os passos e recostou-se na parede úmida, espiando o interior da passagem. Sentiu um metal enregelado apertar-se contra sua bochecha e engoliu seco, impedindo-se de verificar o dono da arma. Foi guiado para beico adentro, com o metal intimidador pressionando sua pele, uma mão enluvada agarrou-lhe o braço e jogou-lhe contra o asfalto irregular, ao lado de uma mulher desacordada. Revistou as roupas claras e amarfanhadas da ruiva, a pele branca em contraste com as marcas arroxeadas que cobriam boa porta do corpo. Eduardo ergueu os olhos, as pupilas tremelicando de raiva e repugno, e fulminou o homem moreno em pé a sua frente, cujas expressões eram tão desdenhosas como maliciosas.
      -Desgraçado – Guinchou Eduardo com os dentes friccionados.
      O homem soltou uma gargalhada debochada e chutou o rosto do garoto caído, forçando o encontro do seu rosto com o chão áspero. Ele gemeu de dor e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Arqueou as costas e empurrou o chão com as mãos, esforçando-se para levantar. Os cabelos recaiam sobre a face voltada para o chão e, de repente, cerrou os punhos e socou o rosto do homem com a força que ainda lhe restava. Observou-o cambalear para trás e o esmurrou mais duas vezes antes dele tombar para o lado desacordado. Fungou, limpou o sangue que escorria por seu nariz e voltou-se para a mulher desmaiada, mas fora pego de surpresa com um golpe na barriga. Revirou os olhos de dor e fitou os olhos esverdeados da mulher que acabara de vingar. A mão dela agarrava a navalha penetrada na pele de Eduardo e o sorriso matreiro em seu rosto enfureceu o garoto. Ele tentou se livrar, mas a mulher enfiava a navalha ainda mais.
      -Talvez eu merecesse. – Declarou a mulher, a voz rouca e sensual embriagou Eduardo. Mesmo que odiasse aquela mulher, ele sentiu-se seduzido pela feminilidade que emanava do seu corpo esguio. – Mas obrigada por interceder por mim. – Ela sussurrou suavemente no ouvido de Eduardo, deixando-o ter arrepios com o hálito quente que passeava por sua face.
       Ela Cravou a navalha mais fundo e a retirou abruptamente. O sangue escorreu pelo metal e pingou no chão, ela limpou o objeto na barra da blusa e preparava-se para fugir dali, quando mãos grossas agarraram-na o braço e a puxaram-na. Eduardo enlaçou o braço na cintura da mulher e a pressionou contra seu corpo. Beijou-a ferozmente e a largou:
      -Não dispenso recompensas. – Um sorriso maroto cobriu o rosto de Eduardo, cujos olhos fitavam a silhueta feminina distanciar-se ao longe, com o mesmo sorriso cheio de desejo, até desaparecer na escuridão.
      Eduardo abriu a torneira bruscamente e o jato d’água fervente incidiu sobre o mármore gélido do banheiro. O chiado provocado pelo encontro das duas temperaturas pairou pelo banheiro mal iluminado. Desenrolou a toalha de algodão da cintura e a largou sobre a pia molhada. Em frente ao espelho, retangular e embaçado pelo vapor d’água, ele fitou o reflexo desnudo do seu corpo, a retorcida imagem dos ombros largos e fortes, os músculos atraentes, o abdômen definido e a pele avermelhada, castigada por um sol forte e ardente. Os olhos castanho-escuros percorreram a linha do músculo transverso até pararem no corte profundo na parte inferior da barriga. Roçou os dedos longos no ferimento aberto e abriu um sorriso de lado, quase imperceptível.

      As pessoas não são o que aparentam ser. Escondem o seu verdadeiro eu e contam vantagem com a ingenuidade das outras pessoas. Algumas são influenciadas e outras, simplesmente, precisam que algo desperte o monstro dentro de si. Cada um possui o lado negro no fundo de suas almas, de suas consciências, mas alguns escolhem lutar contra, enquanto outros simplesmente se deixam dominar.

-Valéria Coelho

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